Para os mais céticos, que duvidavam com cinismo da existência de alma humana e que julgavam completamente encerrada esta discussão, foi um golpe muito duro quando, em 2090, o uso de uma peculiar invenção trouxe à tona fortes indícios em seu desfavor. Tudo começou quando uma equipe de físicos e engenheiros chineses projetou um revolucionário aparelho de tele-transportes, capaz de transportar instantaneamente qualquer objeto para qualquer um de seus receptores espalhados pelo planeta. A invenção, inicialmente recebida com entusiasmo pelos habitantes da terra, em poucos meses, porém, passou a ser objeto de desconfiança, em razão de misteriosas modificações sofridas por seus usuários.
No princípio, tais transformações eram tidas como meros efeitos colaterais, e era forte a esperança de que a ciência encontraria em breve a solução para estes imprevistos inconvenientes. Os estudiosos, no entanto, por mais que se debruçassem sobre grossos volumes de livros ou concentrassem esforços sobre-humanos no assunto, não conseguiam dar sentido ou encontrar razão lógica para este problema, e a humanidade, quase em sua totalidade devota aos ideais de não-crença, iniciou um crescente movimento de busca religiosa – uma revolução social espantosa, algo jamais visto desde a morte do último papa e da queda política do Vaticano.
As evidências que ocasionaram tais circunstâncias, tidas como prova definitiva pelos pensadores místicos e metafísicos, estão intimamente relacionadas com a natureza deste transporte. Ele, longe de simplesmente enviar um corpo de um local para outro, efetua a complexa tarefa de copiar todos os dados de sua constituição, reproduzindo uma cópia idêntica em outro local. Seu funcionamento consiste em vários leitores-laser que escaneiam a estrutura celular, molecular e atômica do indivíduo, recriando-o no aparelho-destino, com base nos dados recolhidos pelo primeiro – mas, para que a leitura consiga obter os mínimos detalhes do corpo, é necessária a desintegração do indivíduo, resultando, como é óbvio, na morte instantânea.
Advém que, se como os céticos afirmam fosse, a consciência não passasse de um emaranhado de padrões de memória armazenados num conjunto de células nervosas – naturalmente, algo indissociável da matéria – se assim, então, fosse, o trabalho de transporte realizado pelos aparelhos seria um êxito, mas a observação cotidiana comprovou que algo de muito estranho constitui as criaturas transportadas, algo que as torna muito diferentes do que eram até o instante em que entraram na máquina. A conseqüência mais comumente observada nos pacientes é um excesso de frieza, uma condição por demais autômata, sem o característico brilho humano no olhar. Notou-se, também, a ausência da variação de estados de espírito, sendo que as vítimas, antes sujeitas a comportamentos variáveis de acordo com as vicissitudes do humor, passavam a se comportar de maneira robótica, realizando gestos e movimentos calculados com precisão.
Tornavam-se, aparentemente, criaturas invariáveis, portanto desabitadas, não-humanas, sem vida;
E perdiam qualquer noção do que quer que fosse bom, mal, moral, imoral, ético ou antiético. Agiam de forma a continuar existindo, com nítidas intenções de prosperar, sem demonstrar, porém, maiores emoções.
Mas se, assim como os céticos afirmam, nada há que não seja matéria, então estes estranhos sintomas não deveriam ser observados. Se toda a consciência, a idéia do “eu” e a vida de uma criatura estivessem associadas às células nervosas de seu organismo, então uma cópia idêntica seria suficiente para que o novo homem possuísse a mesma vida que possuía o original – e, assim, chamá-lo-íamos um só! – o segundo, obviamente, ressurreição do primeiro. Porém, parece claro agora que a consciência de um homem depende de outra entidade, por sua vez imaterial, sua essência, ou alma, que aparentemente se perde durante o processo, por ser impossível sua detecção por aparelhos destinados a perceber e interagir apenas com o material.
Envolta nestes tantos mistérios, o “mal da alma”, como ficou conhecido, foi um acontecimento que animou os religiosos e místicos para continuarem suas buscas, mas deixou desconcertados uma infinidade de filósofos e cientistas inclinados a não relevar o sobrenatural. Muitos tentaram criar teorias amenizando o abalo em suas convicções, mas as evidências eram fortes demais para conter o avanço de misticismo que se apoderava do planeta. Várias religiões novas surgiram, a maioria reciclando crenças espíritas ou zen-budistas, necessárias, segundo os seguidores, para alimentar o novo corpo recém comprovado que nos habita.
Um grupo de descendentes de índios chilenos fundou uma seita que sustentava, aos que haviam sido submetidos ao transporte, a promessa de criar uma nova alma para seus corpos, através da manipulação dos 4 elementos. Reuniam-se em locais de belas paisagens, e submetiam os vitimados – que consentiam, indiferentes – a rituais teatrais muito extensos e exagerados. A eficácia é motivo de controvérsias, pois, apesar de depoimentos favoráveis de ex-desalmados e de uma mudança positiva em seus comportamentos, nunca poderemos provar a existência ou não de uma alma em um corpo que não é o nosso.
Uma outra religião, dissidente desta última e um pouco mais sombria, acreditava que a matéria prima para a criação de uma nova alma só poderia ser encontrada no espaço-sideral, e fundaram sua sede em um local que, por não possuir atmosfera, era riquíssimo na presença de “éter”, um conceito recuperado dos antigos alquimistas.
Este local era a lua.
Os _______, como costumavam chamar-se, realizavam seus cultos e rituais numa fazenda muito próxima à nossa, no segundo quadrante, lado claro da lua. Víamos, da janela da casa e por entre os grossos vidros de nossas estufas, as luzes de tochas e fogueiras que acendiam para confabular com os deuses.
Nunca nos interessamos por eles, apesar de meu irmão mais velho ter sido uma vítima da doença em questão.